Livro Nascido para Correr apresenta o universo dos maiores corredores do planeta: os humanos

Na largada, recomendo o livro Nascido para Correr por um motivo justo: ao longo do trajeto da obra, dá vontade de sair correndo em vários momentos.

Christopher McDougall, o jornalista autor de Nascido para Correr, é um especialista -e entusiasta- do universo das corridas. Fez um trabalho jornalístico de fôlego, com uma grande história e personagens comoventes como base. O ritmo da narrativa é cinematográfico, um livro bem gostoso de ler.

O arco narrativo do livro de McDougall acompanha um personagem ímpar: Caballo Blanco, um gringo excêntrico que vive no México profundo, as Barrancas del Cobre.

Caballo é o elo entre o repórter e os tarahumaras, a tribo de nativos do México que vive de maneira parecida há algumas centenas de anos. É uma cultura resistente e admirável por diversos motivos, mas um deles se destaca na obra. Os tarahumaras, simplesmente, têm muito mais que um punhado de pessoas capazes de completar ultra-maratonas. Sim, na tribo, é comum pessoas, homens e mulheres, que conseguem correr mais de 100 km. E fazem isso constantemente para se divertir.

E, ainda mais incrível, não são poucos os corredores tarahumaras capazes de vencer os maiores atletas do mundo da corrida de longuíssima distância -inclusive derrotar Scott Jurek, talvez o maior nome entre os ultramaratonistas profissionais, que dá as caras no livro.

Porém, como sugere o subtítulo em português, “a experiência de descobrir uma nova vida”, Nascido para Correr não é sobre competir, mas sobre a experiência da corrida.

Para os tarahumaras, correr ajuda a formar sólidos vínculos sociais. Seus hábitos, alimentação e um pouco do treinamento são brevemente descritos no livro e dá até vontade de tomar a chia fresca, uma espécie de energético natural fácil de fazer usado pelos indígenas.

São diversas as experiências sobre corrida apresentadas ao longo do livro, inspirador para quem quer começar ou mesmo aumentar o ritmo. De cada história, dá para tirar lições e dicas para olhar para os próprios passos.

Personagens históricos do universo do atletismo, como o tcheco Emil Zátopek, são destacados na obra. Mas o mais incrível é o grupo que se une em torno de Caballo Blanco e McDougall.

A história de como o jornalista encontra o personagem, e como os dois se envolvem em projeto ambicioso de levar alguns dos maiores ultra-corredores do mundo para encarar o terreno tarahumara, dá o tom à narrativa. Os tarahumaras, claro, são as estrelas, mas outros grandes nomes aparecem.

Entre a aventura de Caballo Blanco e McDougall, aparecem diversas curiosidades e informações para os amantes da corrida.

O livro Nascido para Correr, por exemplo, tornou popular a ideia de que correr descalço é mais saudável que usar tênis com muito amortecimento.

O conceito de corrida de pés descalços é apresentado em detalhes, com sólida fundamentação científica e anedótica de sua funcionalidade.

No mesmo ritmo, o corpo humano é apresentado como adaptado para corridas de longa distância. Segundo o livro, não é que somos bons nisso. Nascemos para correr: a fisiologia, o metabolismo, as especificidades que nos tornam humanos nos tornaram os maiores corredores de resistência de toda história da terra -ou ao menos nos últimos milhões de anos.

De acordo com McDougall, a caçada de resistência (ver Go Wild) foi, durante muitas e muitas gerações, a grande arma humana para sobreviver na África selvagem.

Em torno desse ponto, o autor comete seu maior deslize. Afirma, por exemplo, que a nossa capacidade para a corrida foi o único fator que fez com que sobrevivêssemos e, pasmem, superássemos os neandertais.

Ao tentar mostrar como nossa genética foi selecionada para sermos grandes corredores, chega a afirmar que a mudança é visível se compararmos nossa anatomia com personagens históricos recentes, como César e Benjamin Franklin, período praticamente nulo do ponto de vista evolutivo.

(Não temo em afirmar que, nesses casos, somos idênticos geneticamente e que qualquer grande mudança anatômica é ambiental.)

Outros exageros permeiam o livro. Não é de estranhar, pois estamos falando de pessoas que correm dezenas de horas sem parar. A magnitude da experiência, naturalmente, contamina a obra em alguns pontos, mas nada que tire o brilho desse empolgante registro jornalístico do universo dos ultra-corredores.

Saiba mais sobre os grandes tarahumaras

1 thought on “Livro Nascido para Correr apresenta o universo dos maiores corredores do planeta: os humanos”

  1. Que interessante, Gustavo! Não faz nem um mês que ouvi falar, pela primeira vez, da “corrida natural” ou descalça. Adeptos dessa prática recentemente se mudaram para minha cidadezinha, que atrai corredores e montanhistas.

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