‘Gene, uma história íntima’ joga luz sobre a fronteira entre ciência, cultura e poder

“Gene, Uma História Íntima” (Siddhartha Mukherjee), é um extenso registro da história da genética e da ciência dos genes. Caminha das ideias sobre hereditariedade de séculos atrás –incluindo conceitos de Aristóteles– até os mais modernos conceitos de um dos campos das ciências médicas que mais se desenvolveu no século 21.

Mas, como tem se tornado comum nos livros de divulgação científica e médica, “Gene, Uma História Íntima” flutua entre o cenário científico, histórico e relatos pessoais, não só de pacientes de Mukherjee, um oncologista nascido na Índia e radicado nos EUA, como também de sua própria família: a mãe do autor tem uma irmã gêmea, e as incríveis semelhanças e notáveis diferenças entre elas servem para refletir sobre essa condição fundamental para entender a genética moderna.

Um bom momento do livro é a reflexão sobre como o discurso científico pode ser autoritário ao ponto de ter servido como pilar do nazismo alemão. Ou ter ditado, de forma claramente equivocada, a política agrária soviética. Ou como descobertas no campo da genética impactaram o movimento pelos direitos das pessoas homossexuais.

Quando Mukherjee relembra e explora grandes marcos da ciência genética moderna, a obra tem suas melhores passagens. A maior pesquisa já feita com irmãos gêmeos tem lances de coincidência (ou destino genético) que beiram lendas urbanas ao reunir irmãos separados desde a infância. A história da constatação de que existe um gene ligado à homossexualidade –uma empreitada quase individual de consequências históricas– é comovente e marca uma revolução cultural. A questão da epigenética dialoga com o que há de mais moderno nas ciências médicas.

“Gene, Uma História Íntima” é um livro de fôlego, que tenta ser didático ao explicar a genética, mas que chega em detalhes e mecanismos bioquímicos: me ajudou, por exemplo, nas aulas de genética médica no curso de medicina da UFMG. Vale a pena ler para os iniciados, os interessados e os curiosos.

– Livro: Mortais: Nós, a medicina e o que realmente importa no final

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