Bebê no útero conta história de traição e crime em Enclausurado

Em Enclausurado, do autor inglês Ian McEwan, enxergamos o mundo do ponto de vista de um bebê. Mas não é tão simples: o narrador ainda vive no útero, nas últimas semanas de gestação.

Em primeira pessoa, o feto nos apresenta um mundo escuro, de sentidos restritos, em que os toques e a audição são mais importantes que a visão.

Antes acolhedor, o ambiente se torna cada vez mais sufocante.

Além da interação, cada vez mais apertada, com o corpo da mãe, Trudy, o protagonista ainda sem nome tem que conviver com a banalidade de seu tio, Claude, com quem a progenitora divide a casa, a cama e um sofisticado plano criminoso para matar o ex-marido, pai do narrador.

Para o narrador ainda não nascido, já não é tão confortável percorrer a casa nas pernas, às vezes bamboleantes, outras irresponsáveis (ou apenas egoístas), da mãe.

A vida na barriga tem momentos bons, mas as grandes crises são responsáveis por cenas temperadas por humor, sarcasmo, humilhação.

Ainda assim, o mundo exterior parece mais assustador.

Nascer para que? O feto sabe que a mãe e o tio não o incluem em seus planos de futuro. As possibilidades para a vida, então, são imaginadas a partir de reflexões profundas, mas sustentadas em um conjunto de informações fragmentadas recolhidas por meio dos podcasts que a mãe ouve.

Acho difícil definir essa pequena novela de Ian McEwan.

Os elementos shakesperianos estão presentes. Casca de Noz, ou nutshell no título inglês, faz referência à divisa de Hamlet: “Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”. E assim como em Hamlet, há traições assassinas. Não por acaso, na peça de Shakespeare, é Claudius quem mata o irmão. Na obra de McEwan, é Claude, um babaca irritante, o traidor. Em Hamlet, Gertrude é a personagem que conhecemos mais pela forma que é retradada pelos outros. Em Enclausurado, Trudy é a mulher que conhecemos, como o narrador, literalmente por dentro.

Mas o universo de Shakespeare recebeu roupagem pop. Impossível não lembrar do despretensioso filme Olha quem está falando. E em diversos momentos, Enclausurado ganha ritmo de thriller policial. Em outras passagens, conversa com a psicologia e a biologia, quando o narrador investiga os desejos e as ações da mãe por dentro. Tudo isso temperado com um humor sarcástico que faz do livro uma obra envolvente e divertida de ler.

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