Dieta paleo, mindfulness, corrida anti-stress – ‘Go Wild’ apresenta a ciência por trás da modinha

Qual a relação entre dieta paleo, corrida como meio de alcançar o bem estar físico e mental, a meditação mindfulness, a dieta low carb e a higiene do sono?

Primeiro, que tudo isso está entre as modas de saúde, bem estar e alimentação.

Em segundo lugar, esses conceitos não são apenas marcas promocionais para vender a fórmula mágica para emagrecer, neste mês, nas bancas.

Eles relacionam-se, também, com o entendimento, difundido a partir do início da década de 1980, de que o desenvolvimento da agricultura prejudicou a qualidade de vida humana.

Sim, as pesquisas arqueológicas e de medicina evolutiva apontam que o modo de vida do homem e da mulher caçadores-coletores era mais saudável e feliz do que o do homem pós-agricultura.

E a dieta, a prática de atividades físicas e até a meditação são formas de se aproximar desse estado selvagem e se esquivar dos males da civilização. Quais? Entre eles a obesidade, a depressão e a falta de atenção.

Parece conversa de bicho-grilo, mas existe uma vasta literatura científica que sustenta a tese.

John Rattey, médico psiquiatra de Harvard, é um dos cientistas que debruçaram-se sobre esse campo.

É importante notar que Rattey está longe de ser um guru de práticas alternativas (e suspeitas) que tais termos sugerem.

O médico, co-autor de “Go Wild: Free Your Body and Mind from the Afflictions of Civilization”, é, entre outras coisas, responsável pelo determinação do diagnóstico do famigerado transtorno de déficit de atenção em adultos, talvez a patologia psiquiátrica mais questionada pelos entusiastas de práticas alternativas.

Go Wild, escrito em companhia do jornalista Richard Manning, é um instigante livro que tenta demonstrar que a vida dos caçadores-coletores, o ser humano selvagem a que o título do livro refere, era mais plena e saudável que a do homem pós-agricultura.

Mais que isso: misturando divulgação científica e literatura de auto-ajuda, Rattey e Manning traçam sugestões de como a adoção de práticas selvagens podem melhorar a saúde mental, física e social do homem e da mulher contemporâneos.

Sempre baseado em pesquisas recentes e reconhecidas, o livro sustenta que “a evolução humana aconteceu sobre condições selvagens”.

Tentar simular tais condições no mundo moderno é um caminho para a boa saúde e a felicidade, pois o processo de evolução vinculou, de forma indissociável, os dois conceitos nos nossos genes.

As pressões criadas pela civilização são muito recentes para alterar nosso código genético. Somos caçadores-coletores. Ou, pelo menos, nossa genética é. Ser caçador-coletor não é uma escolha: é o modo de vida que a seleção natural incutiu no nosso DNA.

Também é importante notar que o livro, ainda que escrito em ritmo ágil e com histórias pessoais que ajudam a criar uma narrativa envolvente, está longe de ser um manual de dieta paleo ou meditação.

Rattey e Manning fazem, sim, sugestões de mudança de vida e apontam alguns caminhos, mas o interesse dos autores é que a jornada em direção ao selvagem seja um processo particular, conveniente com as características e recursos pessoais de cada um.

Nesse sentido, seis capítulos se destacam.

Ao tratar de alimentação, por exemplo, os autores mostram como a dieta ocidental moderna, com uma grande fatia das calorias vindas de carboidratos, está longe, muito longe, das exigências do nosso corpo. Pior: nossa dieta favorece um alto índice de açúcar no sangue, condição inédita na história evolutiva do ser humano.

Também é interessante a justificativa apresentada pelos autores pelo horror (infundado) que temos da gordura na alimentação. Não vou detalhar aqui, mas a ojeriza à gordura, segundo Go Wild, foi formatada a partir da condição de saúde de um presidente dos Estados Unidos durante a guerra, pela indústria da alimentação e pela má-leitura de exames de sangue disponíveis à época. Super-história.

Quando Go Wild aborda a questão dos exercícios e movimentos, o livro destaca a incrível capacidade do corpo humano de perder calor, fundamental na prática da caçada por resistência que moldou nosso corpo e nos tornou ameaças para os animais da savana africana, cujos sistemas de termoregulação têm menos recursos que o nosso.

Ao falar do sono, a obra ressalta que dormir já foi um atividade coletiva e traz um curioso panorama do ato de dormir em diversas realidade. Mas, mais importante, é o modo como o livro sublinha que dormir é primordial para manter afiada a capacidade cognitiva e na regulação do humor.

Capacidade cognitiva que precisa estar redondinha na hora da caça, ação que demanda planejamento e entrosamento do grupo, conhecimento do mundo natural e concentração absoluta para seguir os rastros e até prever as ações da presa. É um estado mental de consciência e atenção total -e que pode ser simulado com boas práticas de meditação.

O contato com a natureza também é valorizado e justificado pelo conceito da biofilia, uma hipótese que sugere que o ser humano precisa se conectar ao mundo natural.

As pesquisas que servem como fundamento do conceito de biofilia levaram o governo japonês a investir milhões de dólares para estudar e incentivar a prática de banho de floresta como política de saúde pública.
E note-se que não é só o humor que melhora, como pode parecer óbvio. O sistema imunológico, por exemplo, é um grande beneficiário do contato com a natureza.

Porém não basta cuidar do corpo e se conectar com a natureza. Rattey e Manning destacam, também, a importância da tribo para a humanidade.

As relações interpessoais e o exercício da empatia, mostra o livro, são fundamentais no processo para melhorar a vida olhando para a aurora do ser humano.

Espero que o livro tenha despertado seu interesse. É uma obra que vale a pena ler e que pode oferecer pistas e caminhos para melhorar a vida.

Parece-me óbvio que se alimentar bem, praticar exercícios físicos, ter uma boa relação social, aproveitar as noites de sono são ingredientes de uma vida saudável e feliz.

O livro mostra isso, embasado na mais moderna ciência, de uma forma clara e envolvente, e apresenta diversos caminhos para que nós consigamos adotar, paulatinamente, algumas práticas que melhoram a qualidade de vida.

O capítulo final, inclusive, apresenta o percurso de cada um dos autores em busca da vida selvagem. E nos mostra o que podemos fazer para que nós adotemos as mudanças.

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Com seus próprios olhos

Algumas semanas depois de ler Go Wild, me deparei com o documentário Kalahari Killers no YouTube.

O filme acompanha a vida e, principalmente, como é a caça dos !kung, comunidade africana de caçadores-coletores cujo meio de vida é considerado um dos mais antigos e preservados da terra.

Muito do que Go Wild propõe e descreve pode ser visto no documentário, da incrível capacidade física dos !kung até a concentração e a resiliência absoluta na caçada. Vale a pena ver!

2 thoughts on “Dieta paleo, mindfulness, corrida anti-stress – ‘Go Wild’ apresenta a ciência por trás da modinha”

    1. É… Em muitas culturas, os quartos de dormir são coletivos, há rotatividade de alguém acordado, e ter uma conversa em tom baixo e tranquilo ou até mesmo ter cachorro no quarto deixa o sono mais tranquilo…

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